Quando o modelo de vida leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar no mesmo caminho.
A virtualização do local de trabalho, a possibilidade de trabalhar em qualquer canto, não significa necessariamente que se facilitou a nossa existência. Poder trabalhar em qualquer lugar hoje significa que se pode trabalhar o tempo todo.
Há executivos que entram em estado de desespero porque não conseguem mais conviver com a família. E como o mundo da competitividade é muito acelerado e ele precisa de fato estar o tempo todo em atenção, produzindo, procurando competência e eficácia, não sobra tempo para outras coisas. Então, tem-se um nível de infelicidade muito grande.
A responsabilidade é de um mundo obsessivamente competitivo, muitas vezes também de um modo de vida de como uma família vive. Por exemplo: hoje há um alto nível de consumo nas famílias de classe média dos executivos. Esse consumo é responsabilidade do homem ou da mulher. Se ele baixar a qualidade do trabalho que faz, ele baixa o padrão salarial. Se ele diminuir esse padrão, as pessoas consomem menos. A questão central é como você faz um pacto com a sua família. É quase uma reunião familiar, em que se diz o seguinte: "Todo mundo terá de diminuir um pouco o padrão de consumo porque eu precisarei baixar a carga de trabalho. E para eu diminuir a carga de trabalho, vocês não podem me cobrar. Eu preciso de vocês para poder ter um pouco mais de vida".
Essa história de "eu não levo trabalho para casa, não misturo trabalho com vida pessoal" é uma bobagem. Nenhum de nós é uma função aqui, outra lá e outra acolá. Você é uma pessoa inteira. O que você precisa é administrar o tempo.
Para isso, talvez esteja esquecendo que é necessária uma distinção entre o que é urgente e o que é importante. A maior parte das pessoas no mundo do trabalho executivo está cuidando do urgente e não do importante. Uma parte do mundo executivo está próxima do colapso. O que temos de reorientar? Questionar o que precisamos ter, de fato, em termos de bens materiais. Até onde nós vamos? Até onde eu, executivo, vou levar minha vida ao esgotamento, à custa de quê? Se eu estou perdendo a vida, estou vendendo a minha alma. Aliás, os cristãos têm uma frase que muitos executivos deveriam pensar sempre. Diz: "De nada adianta a um homem ganhar o mundo se ele perder sua alma" (Mt 16,24).
O executivo que entra em estado de tristeza fica assim porque não consegue se enxergar saindo disso. Porque é um consumo em que mais se tem, mais se cresce. É como massa de pão: mais bate, mais cresce. Tem de ter um basta, antes que a natureza dê. E ela costuma dar. Via saúde, por exemplo, ou via loucura. É necessário reinventar o modo como estamos existindo; não é apenas o mundo do trabalho, que é só uma das dimensões.
Karl Marx, no final do século XIX, acreditava - e esse é um sonho que se perdeu - e ele imaginou que seriam cem anos depois, portanto, agora, nesses últimos trinta anos - em que o homem trabalharia quatro horas por dia. E nas outras vinte horas iria brincar, ficar com a família, pescar, ler. Já temos tecnologia suficiente para que a humanidade trabalhe quatro horas diariamente.
Quando o executivo se sente mal, não é apenas no trabalho. É o mal-estar da civilização. "Eu não quero mais viver nessa cidade. Não quero trabalhar desse jeito." Para isso, não espere o epitáfio.
Alguns executivos me perguntam: "Mas como é que eu faço? Nesse mundo que está aí, se eu bobear eu danço". Depende de com quem você está querendo dançar. Quem sabe você se junta com a sua família, com a sua cabeça, reflita e pense se o caminho que você está escolhendo pode ser um caminho em que você está só se ocupando, mas não está vivendo de fato. Ocupação não é sinônimo de vida, é sinônimo de atividade.
Referência:
CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 22 ed. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 57-60.